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domingo, maio 21, 2006

O público do vinho

Após um extraordinário almoço entre amigos na bela Ericeira, confesso que tive alguma dificuldade em deixar o belo sol daquela vila piscatória para me deslocar até Lisboa. Mas o evento merecia o esforço, e não me arrependi, o João Roseira e a Teresa Gomes conseguiram colocar ao nosso dispor um meio previligiado para apreciar verdadeiros nectares que ainda estão à espera de poder invadir os nossos copos.

Ao chegar perto do Hotel Pestana estranhei desde logo a fraca movimentação à sua volta, vários lugares para estacionar e nem vivalma à porta. Será que já lá está toda a gente? Não liguei e lá fui eu (já atrasado) para o encontro com os meus companheiros de blog e dos outros blogs, como o Rui já referiu. Ao chegar à sala Belém fiquei ainda mais admirado, estávamos quase a meio do evento e estariam cerca de 30/40 pessoas lá dentro, o que se teria passado para tão fraca afluência?

Em conversa com algumas pessoas presentes várias teorias surgiram, falta de divulgação, divulgação mal direccionada, falta de apoios, má localização, problemas com a data, problemas com o público alvo, etc, etc. Não haverá certamente uma única explicação para que um evento que movimentou centenas de pessoas durante 13 dias chegasse ao seu encerramento com apenas 200 visitantes (isto não são números oficiais, é uma estimativa minha). Foi um evento que colocou à disposição dos visitantes vinhos que não se encontram todos os dias nas nossas mesas, e mais ainda, deixou-nos um cheirinho do que vão ser alguns vinhos daqui a 2 ou 3 anos. Não se estaria à espera que milhares de pessoas rumassem à Ajuda para este evento, mas estou certo que o João Roseira estaria à espera de mais gente, pelo menos os vinhos presentes assim o mereciam. Em minha opinião (não tendo acesso a todos os dados) o motivo principal deveu-se ao pouco apoio dado ao evento pelas revistas da especialidade, que para o público comum são os principais opinion makers do mercado. Poucas ou nenhumas referências ao evento levaram a que o público menos pró-activo na procura de eventos enófilos não chegasse a ter conhecimento do evento, e os que tiveram conhecimento, não lhe deram o devido valor. Vamos esperar que para o ano seja melhor.

Tudo isto levanta algumas questões: qual é, de facto, o público do vinho em Portugal? O que faz uma feira como "O encontro com o vinho e sabores" ter 10.000 pessoas no Centro de Congressos da Junqueira e depois termos as garrafeiras a queixarem-se que não há mercado para o vinho de qualidade. Porquê não existem mais "wine bars" em Lisboa e arredores (esta é a realidade que conheço)? Porque é que continuamos a ter os restaurantes com um péssimo serviço de vinhos (genericamente falando)?

Será que a pseudo-crise explica tudo?

Não tenho respostas para tudo isto, mas tenho algumas ideias.

Quão difícil seria que o mundo do vinho aprendesse algo com indústrias como a da cerveja e a do café? Quantos estabelecimentos conhecem que não tenha copos minimamente adequados para a cerveja fornecidos por alguma marca? Alguém conhece algum estabelecimento que não tenha aparelhos para servir as cervejas à temperatura correcta, novamente fornecidos pelas respectivas marcas? Quais os estabelecimentos que não servem os seus cafés à temperatura correcta e em chávenas adequadas? O que seria necessário para que alguns distribuidores pudessem apoiar a restauração a melhor vender o vinho? Para quando pequenos cursos, de 1ou 2 dias, para funcionários de restaurantes aprenderem a servir vinho, da mesma forma que existem sessões a ensinar a tirar cerveja ou café? Para quando uma aposta na variedade quando falamos em vinho a copo? Para quando um interesse real dos distribuidores em que os restaurantes, supermercados e garrafeiras vendam os seus stocks, sem que para isso tenham de esperar anos até vender aquelas garrafas de vinho que não tiveram sucesso (suportando parte dos custos, por exemplo, permitindo assim que os estabelecimentos possam apostar em novos vinhos que vendam mais)? Quantas vezes não foram a restaurantes e beberam água porque a carta de vinhos apenas estava adequada aos consumidores da década passada?

Eu não sei sequer se algumas destas questões são realizáveis, mas são questões que eu e outros amigos nos colocamos há já algum tempo e que para as quais continuamos a não ter respostas.

Tenho a certeza que com mais e melhor acesso ao vinho (ao bom vinho), não teríamos uma sala tão pouco composta como a que tivemos no domingo, e teríamos uma indústria muito mais rentável para todos, mas para isso é necessário que alguém tome a iniciativa. Eu já tomei a minha, compro vinho e incentivo toda a gente à minha volta a fazê-lo... e você?

Bons vinhos para todos,
RR

PS: Não é minha intenção com este post fomentar a que só se consuma vinho, eu próprio gosto de uma boa cerveja fresquinha ou de um bom G&T. Apenas acho que há espaço para todas o tipo de bebidas alcoólicas (desde que bebidas com alguma moderação, não muita) e que o vinho tem sido claramente menosprezado por todos, e cabe-nos a nós, consumidores, uma parte importante desse trabalho de divulgação, mas o mais importante trabalho só pode ser desempenhado pelo governo (aqui havia espaço para outro post, talvez mais para frente), pelos distribuidores e pelos produtores.

6 comentário(s):

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Caro Ricardo

Apenas para lhe dizer que já existe pelo menos 1 produtor ALTAS QUINTAS e oferecer cursos de vinhos dirigidos aos empregados de mesa, bem como a disponibilizar (por enquanto apenas em alguns restaurantes seleccionados) facilidades para a venda de vinho a copo. Bem sei que de momento é só um produtor a tomar esta iniciativa, mas...pode ser que pegue a moda.

Um abraço

JTMB

ricardo disse...

Caro José Tomaz,

por acaso já sabia, reparei na notícia e na publicidade que sairam na Revista de Vinhos. Enquanto estava a redigir o post pensei em referir esse facto, mas como ainda não sei bem qual o alcance dessa campanha, resolvi não o referir e esperar para ver. De qualquer das formas é uma iniciativa de louvar (aproveito a ocasião para dar os parabéns pela iniciativa).

Um abraço,
RR

MasterPeace Dude disse...

Viva!

Ricardo, dentro das iniciativas que mencionaste e com as quais concordo, destacaria os "Wine Bars".

Acho que temos uma cultura nacional suficientemente virada para os vinhos e petiscos, para que este tipo de "estabelecimento" tivesse sucesso.

Quantos de nós queríamos ter um bar, à la "Cheers", para visitar ao final do dia de trabalho, descompensar o stress com um convívio com os amigos "do costume", beber um vinho de qualidade "a copo", acompanhado com uns petiscos tradicionais portugueses (ou mesmo outros, tais como as tapas, de 'nuestros hermanos').

The 'Wine' takes it all! ;-)

Voto nestas iniciativas!

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Um bom bar/restaurante para tomar um copo no fim de tarde é o Le Gout du Vin, defronte da Assembleia da República.

NOG

ricardo disse...

Não me parece que a questão dos Wine Bars seja a mais importante, até porque, culturalmente, nunca terão muito sucesso, uma vez que temos a mania de sair tarde do trabalho, e os que saiem cedo são as pessoas mais caseiras. O problema do vinho a copo prende-se mais com as refeições em restaurantes, pois muitas vezes as garrafas de vinho são demasiado grandes para o consumo que se quer/pode fazer.

No entanto, fazendo eu parte dos que saiem tarde, gostaria de ver esse mercado florir, talvez assim arranjasse mais argumentos para chegar mais cedo e sair mais cedo.

Abraços,
RR

Paulo Pacheco disse...

gostaria IMENSO do vossso comentário ao meu ultimo post no http://lapas.blogspot.com sobre a taxa de alcolémia.

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