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terça-feira, agosto 21, 2007

Opinião Pessoal e Intransmissível

“Ando contente com a Revista dos Vinhos!”

Acredito que esta afirmação tenha provocado, aos leitores mais assíduos, um ligeiro franzir de sobrolho acompanhado de imperceptível deslocamento de ombros e cabeça em direcção contrária ao ecrã. Espanto! Não é normal começar um post a dizer bem de nada e muito menos das revistas da especialidade. Mas é verdade e explico porquê.

Aquando da entrada no mercado da Blue Wine a RV empreendeu uma ligeira renovação estética, e que na altura foi aqui avaliada, de modo a responder à nova concorrência. No entanto, o que me agradou mais foi a mudança editorial, empreendida deste então, com notório apogeu nestas últimas edições. Mais opinativa, mais pessoal, mais crítica, mais incisiva, mais exigente, mais objectiva e direccionada no discurso.

Esta mudança foi especialmente bem conseguida com a criação da recorrente crónica de opinião “Dois Dedos de Conversa” com assinatura do João Paulo Martins. Confesso, que é das primeiras coisas que leio. Nesta, o JPM tem, muitas vezes, dado a sua opinião sobre o vinho e os bastidores do mesmo (interessante, por exemplo, o artigo sobre o “gosto” dos júris em concurso de vinhos, ed. 211 – Jun/07). Gostei particularmente desta última edição (ed.212 – Jul/07) em que responde a um livro de Alfredo Saramago sobre a questão dos descritivos utilizados na "arte" da crítica de vinhos. Independentemente de estar de acordo ou não com a sua opinião, o que apreciei foi utilização do espaço para abordar questões objectivas, para responder pessoalmente a um terceiro identificado e não efectuar respostas generalistas a terceiros não identificados ou a terceiros conceptuais. Foi incisivo. Foi, se me permitem, um blogger.

Outro exemplo de blogger. Outro exemplo de escrita opinativa com vislumbres da sua alma, com receios, confissões e dificuldades: o artigo de opinião “Maratonas Vinícolas” do Luís Antunes na ed. 211 – Jun/07. Um artigo muitas vezes centrado no “eu” (dele), partilhando estados de alma e reflexões com o leitor. Revi-me bastante em partes do seu texto. Permitam-me deixar aqui um apanhado: “Mas convínhamos, a finalidade de um vinho é ser bebido, não apenas provado...eu gosto de vinho, de beber vinho...O respeito que tenho pelo vinho obriga-me a bebê-lo. E gosto, pronto...dei por mim a procurar pequenas diferenças nestes vinhos perfeitos, que pudessem justificar as diferentes notas...Será que na ânsia de provar mais e mais vinhos...não terminamos muitas vezes por cometer este pecado de não dar a cada vinho a atenção que ele precisa e merece?...Ao provar muitos vinhos em provas sérias, existe um outro problema. Torna-se raro conseguir desfrutar descontraidamente de um vinho. Já não me lembro da última vez que bebendo um vinho despreocupadamente ele me surpreendeu. Não consigo, parece que o radar está sempre ligado e o nariz em modo avaliação.” E continua sem receio a revelar-nos a sua pessoa. Simpatizei com o texto. Respeitei o escritor. À minha escala, ultimamente só consigo desligar o nariz com rosés. Boto no copo e zuca. Sem pensar. Sem avaliar. O que eu gosto é de beber!

Por falar em rosés, bom editorial sobre os mesmos nessa mesma edição (211- Jun/07). O director editorial, Luís Ramos Lopes, também apoiado num discurso assente no “eu”, começa com uma confissão: “Gosto de Vinhos Rosés.” Aliás, chego ao fim do texto com a sensação que o mesmo podia ter sido escrito por mim aqui no blog, não fosse o mesmo ter as virgulas irrepreensivelmente bem colocadas. Do meu ponto de vista, para ser perfeito o editorial deveria, apoiando-se no painel de prova de rosés efectuado na mesma edição, referir as marcas que insistem em acrescentar “umas gramitas de açúcar para se tornarem mais apetecíveis”. Mas isto penso que a RV ainda não está preparada para o fazer pois era mexer com os poderes que garantem a existência da revista. E isso compreendo: mais vale uma revista do que nenhuma revista.

Para terminar esta minha exposição de exemplos de bom serviço “opinativo”, quero referi a avaliação de dois livros feita na última edição (212- Jul/07). Uma é sobre um romance do Francisco Moita Flores. É irrelevante! A outra é sobre um guia de vinhos: Guia de Vinhos de Portugal – Escolha de Enólogos. Esta crítica encaixava-se na perfeição aqui neste blog. O estilo, a forma, o conteúdo. O director de Área de Negócios da RV, João Geirinhas, faz uma crítica a desancar de alto a baixo o guia. Excelente atitude. Não conheço o livro e não sei se terá razão no que escreve ou não mas, para a ideia que quero passar neste post, isso é irrelevante. Para mim o importante é a tomada de posição. É escolher uma das trincheiras e disparar para o outro lado. Dirão alguns: “o homem aproveitou a revista para arrear fortemente no guia da concorrência”. É verdade. Mas eu sei disso. Os leitores devem estar conscientes disso. A crítica está assinada e nós sabemos que cargo ocupa a pessoa que a escreveu. A crítica é clara, incisiva, sem meias verdades ou meias mentiras. Tudo às claras. A sua bandeira está bem içada do lado da sua trincheira. E isso é bom. Sabemos com o que contar. É bem melhor que aquelas críticas em que se elabora uma descrição mais ou menos inócua do guia, e que nos parece inocente, mas se tivermos com mais atenção numa segunda leitura reparamos que a utilização de determinada frase ou adjectivação não é casual e desprovida de significado. São as mais traiçoeiras e enganadoras. Agora, como é evidente, espero que a crítica dos guias de vinhos do JPM e JA que sairão neste Outono não se limite a referir que os guias estão arrumados por região ou por tipo de vinhos e que foram provados um número impressionante de vinhos. Seria criticável!

A Blue Wine também apresenta vários artigos de opinião. Os estrangeiros sofrem do facto de serem estrangeiros. Não há identificação com o lado mais pessoal e quotidiano do panorama vínico nacional . É verdade que, por vezes, fazem referências pontuais ao que é nosso: “... como é o caso da portuguesa Touriga Nacional.”, mas percebemos que o artigo foi escrito para revistas de vinhos de todo o mundo e que por exemplo em Espanha o artigo saiu qualquer coisa como (traduzam para castelhano) “... como é o caso da espanhola Tempranillo”. Nos portugueses, o Manuel Carvalho é demasiado frio e impessoal. Escrita irrepreensível mas eu sinceramente não consigo criar empatia com o escritor. Dá-me a sensação que podia escrever, tão bem, sobre vinho como sobre hortaliças. A aproximação aos blogs foi feita através da presença do Rui Lourenço Pereira, responsável pelo blog Art meets Bacchus (totaliza 16 posts desde o início de actividade – Jan/2007 – e o último data de 20 de Março. Será que ainda está vivo? Será que alguma vez esteve?). Tenta-se neste espaço dar voz ao consumidor. Boa iniciativa apesar do espaço dados ser curto, o que obriga o “nosso colega” blogger a ficar sempre muito pela rama. Ainda assim positivo pois no resto a revista limita-se a ser bem intencionada e divulgadora do social e bons costumes vinícolas. Uma espécie de revista “Caras” do vinho.

Por tudo isto, repito: “Ando contente com a Revista dos Vinhos!” Espero que os artigos de opinião continuem a mesma linha. E espero que hajam mais em cada edição. Tenho até a inconfessável (ups!) presunção de que a relação mais directa, entre escritor e leitor, adoptada pela RV tenha sido inspirada neste e noutros blogs opinativos sobre a temática do vinho. Era sinal que estávamos a fazer um bom trabalho e que a existência dos blogs veio tornar o leitor mais exigente com o escritor. Era sinal que o leitor quer saber o que realmente pensa o escritor, de que lado da barricada se coloca, quem e o que defende, do que gosta e o que detesta, o que receia e no que acredita. Enfim, queremos pessoas e não máquinas de artigos impessoais e transmissíveis.

p.s. O período de férias levou a uma menor produção aqui no blog. Esperamos que agora de baterias carregadas, a produção volte ao habitual e alucinante ritmo de um post por semana. :)

10 comentário(s):

João disse...

"Ando contente com o Rui"

Numa altura de Verão, em que a bebida mais apetecível acaba por ser a bela cerveja - todos sabemos que aqui pelo blog o que se gosta é de vinho tinto e vintages, ficando o branco muitas vezes de fora (estamos a tentar mudar, mas tem de ser feito com algum cuidado) - em que apetece tudo menos ficar em casa a olhar para o computador, o nosso "opinion maker" não deixa de marcar presença com artigos tão ou mais interessantes que as várias revistas de especialidade.

É de louvar a investigação, o empenho, a dedicação (estas três últimas palavras são para serem lidas com a entoação do Artur Albarran) levada em cada post de forma a fundamentar as várias opiniões e o cruzamento das mesmas entre revistas.

RV, BW, WP - Querem um crítico de opinião ?
Olhem que a cláusula de rescição é bastante elevada (aí uns Charmes, Pintas e Vinhas da Ponte para todos e facilmente podemos chegar a algum entendimento)


Estamos todos ansiosos que chegue Setembro ou Outubro para iniciarmos as provas de novos vinhos, da proximidade com o "Encontro de Vinhos e Sabores" na FIL, do fresco da noite que exiga um belo copo de tinto para acompanhar, do regresso de férias e das histórias das mesmas, de poder beber um vintage que não fique adocicado com o calor em vez de me apetecer algo com gelo. (isto claro de um ponto de vista enófilo, porque calor, roupas frescas (ou mesmo muito curtinhas para certas pessoas) e praia, por muito que goste de tinto, depressa passava para o branco :-)).

Bem, sem me perder muito (foi mesmo só para haver uma resposta a este post neste período menos fértil de intervenções) desejar que o retorno das férias traga mais participação a este e outros blogs.

Um abraço a todos

JP

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Ando a gostar muito de ler o Vinho a Copo!

Pedro Sousa P.T. disse...

Em resposta ao joão, digo eu que ainda há algum verão pela frente. Portanto as imprialecas, brancos e rosés, preparem-se ainda, que aí vamos nós!
Agora: contente, contente, não posso andar muito, pois isto do vinho está tornar-se, infelizmente, um passa-tempo um tanto ao quanto carote, para o meu bolso.Principalmente quando procuro a qualidade. Mas pronto, fazero o quê? é a vida...

Pratas disse...

Muito bom texto.

Para mim esta edição da RV de Julho foi uma das melhores. (Adorei o artigo da Flor de Sal)

Confesso que não estava nada à espera de encontrar críticas tão directas na RV. Por um lado gostei porque as críticas até fazem algum sentido, por outro lado senti que estava a ler uma série de ataques pessoais.

Será esta a identidade e o perfil da RV? Eu gostei, mas temo que futuras "retaliações" venham a prejudicar o consumidor.

1 Abraço

rui disse...

Caro Pratas,

Infelizmente não há o risco de “retaliação”. Quem é (sem ser alguns de nós me blogs) critica a RV ou algum dos “opinadores” referidos no post? Quem é que tem meios de comunicação disponíveis para isso?

A haver possibilidade de “retaliação” (não física, claro) não acho que seria mau para o consumidor. Pelo contrário. Não é disso que se faz esse sistema denominado “democracia”? Nós em Portugal é que não estamos muito habituados a haver opiniões marcadamente divergentes pois o país é pequeno e todos querem apontar para o centro de maneira a apanhar o maior número de pessoas (desde os partidos políticos a outros sectores da sociedade).

A RV não precisa da minha defesa mas, sinceramente, não acho que tenham sido ataques pessoais. Nos dois artigos onde a crítica tem um alvo identificado, o “porquê” da crítica é sempre explicado (até com exemplos, sejam ou não retirados de contexto) e não encontro evidentes ataques às pessoas mas sim às obras mencionadas.

Porventura era mais normal, por exemplo, o JPM ter escrito qq coisa como “ … por ocasião do recente lançamento de um livro com algumas criticas ao descritivos de prova utilizados por alguns dos críticos de vinhos da nossa praça dei por mim a pensar se de um modo geral …” Ora, se assim fosse, se calhar a maioria já considerava que não havia ataques pessoais (pois o autor do livro não foi identificado) e era tudo mais generalista, no entanto, haveria uma minoria que sabia de quem era o livro referido e em surdina comentava o “ataque pessoal”. Era mais simpático assim? Ou, pelo contrário, mais enganador, mais camuflado?

Um abraço,
RC

Pratas disse...

Caro Rui,

Compreendo o seu ponto de vista e estou de acordo consigo. Qualquer crítica bem feita é sempre uma mais valia.

Lendo os artigos não vejo algum motivo para dizer que a crítica foi mal feita, muito pelo contrário. Senti sim o que provavelmente muitos leitores sentiram, um aperto no estômago ao ler os artigos. Acho que senti na pele o poder que uma revista como a RV pode ter.

A RV sendo uma revista prestigiada, tem esse poder. Apenas espero que esse poder seja bem empregue, como aconteceu desta vez.

1 Abraço
Luis

Pingus Vinicus disse...

É fatídico, mas em Portugal, todos jogam ao centro (basta ver no futebol: os nossos melhores jogadores são centro campistas). Esta fatal ida para o meio é, para mim, uma das causas do nosso subdesenvolvimento.
Os extremos, os choques, a confrontação de ideias nunca foram nossa tradição e deveriam ser.

Depois deste desvairo, de facto os últimos artigos da RV são um excelente exemplo do que deve ser a critica. Sem rodeios, directos e objectivos.

Kroniketas disse...

Gostei dos artigos, que também li, e gostei do post. Força aí.

Fernando Santos disse...

Boas,

De regresso da Europa e agora em Portimão a gastar os últimos cartuxos das férias, deixou-vos (de calções molhados e a digerir uma salada de atum...) um cumprimento e gostaria de apenas salientar que a Revista Vinhos a par com este blogue, umas visitas a Quintas e Adegas do nosso país e um cursito rápido, têm sido a minha fonte de formação na iniciação na arte de degustação de vinhos, por isso, ando contente com o Vinho a Copo! ;)

Abraços,
Fernando

P.S. a ver se provo alguns dos vinhos que trouxe de Franca e Itália para vos dar a minha opinião.

rui disse...

Caros,
eu não tenho respondido aos elogios pq como raramente os faço tb não sei lidar com eles muito bem. De qq forma agradeço.

Quanto ao aprender alguma coisa com este blog, a meu ver, se este tem ensinado alguma coisa não é sobre vinhos é sobre a capacidade de questionar. Quer a nós próprios, quer o que nos é vendido. Ou seja, se observarem, por exemplo, os meus posts, em quase todos eles, o tema do vinho é apenas um suporte para passar ideias mais gerais sobre a comportamento e forma de pensar do homem. E pronto, agora é que me chamam de convencido. :)

Um abraço a todos,
RC

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