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segunda-feira, novembro 12, 2007

Encontro com o Vinho e Sabores 2007

Sábado. Como sempre o fiz, também nesta edição participei num prova especial. Cedo descartei a ideia de ir à prova dos Douro Boys (que veio a esgotar, como se esperava) porque considerei que não fazia sentido ir provar vinhos que anteriormente, salvo uma ou outra excepção, já os tinha bebido no conforto do meu lar (ou no conforto do lar de amigos). Apostei na surpresa. Apostei na prova dos vintage de quinta da família Symington.

Como no ano passado, optei por chegar perto da hora da prova especial. Devia ser umas cinco da tarde. Apenas tempo para dar uma espreitadela à lista de vinhos da loja à entrada do recinto. Crise? Qual crise? Não deixei de sorrir quando na lista dos vinhos esgotados figurava sozinho um tal de Qt. Vale Meão 2005. Pressupondo que não havia para venda apenas duas ou três garrafas, confirma-se que são sempre os mais caros que se vendem melhor.


Prova Especial

A apresentação esteve a cargo do Charles Symington coadjuvado pelo responsável de produção da Warre’s (se bem compreendi).

Breve apresentação do grupo Symington, das quintas que a família detém, dos variados tipos de porto que produzem, seguido de prova dos vinhos servidos. Era isto que se esperava. Era isto que devia ter acontecido. O que falhou nesta sequência lógica? Logo o início da frase: “Breve”. Toda a apresentação emperrou porque não foi breve. Foi longa e foi mal preparada. Não se pode pegar em meia dúzia de slides com números, enfrentar a audiência apoiado apenas no seu conhecimento e ir conduzido a sessão ao sabor do vento. Especialmente se não se é um comunicador nato, como era o caso.

Conforme nos vamos lembrando, assim vamos acrescentando isto ou aquilo. Depois, esperamos por feedback da audiência para reagirmos. Isto é um erro porque assim deixamos que seja a audiência a conduzir a apresentação quando devia ser exactamente o contrário. Isto é ainda pior quando do lado da audiência temos pessoas que não percebem que não estão a ter um tête-a-tête com o apresentador.

Confesso que me passei dos carretos e me vim embora quando já decorria uma hora e meia de apresentação, ainda não tínhamos chegado a meio dos vinhos em prova, e havia uma pessoa da assistência que insistia em perguntar por escalas de Baumé (açúcar residual) dos vintage porque considerava o primeiro mais doce que o segundo e menos que o terceiro. E depois na realidade ou a coisa estava trocada ou a diferença se situava nas escassas décimas. E o topo da risada foi quando perguntou pelo Ph. Quando lhe responderam que não tinham o Ph mas apenas a acidez, saiu-lhe esta pérola: “Não faz mal, também serve?” Também serve? Mas serve para quê, explodiu na minha cabeça. Para mostrar aos outros que se sabe o que é o Baumé e o Ph num vinho? Para fazer perder tempo e paciência às outras pessoas na audiência? Para um levantamento estatístico que anda a fazer sobre acidez nos vinhos do porto? Para regozijo pessoal cada vez que se acerta na previsão da acidez que o vinho tem? Para conseguir apreciar melhor o vinho agora que possui mais informação do mesmo? Todas as anteriores? Acredito que para a pessoa faça sentido aquelas perguntas, caso contrário não as tinha feito, mas não era mais simpático, atencioso para com os outros, perceber que face ao adiantado da hora, seria melhor no fim dirigir-se aos apresentadores e fazer todas essas questões mais técnicas?

Como vos disse, assim que o João Paulo Martins se levantou e saiu, eu fiz o mesmo. Se ele pode, eu também. :)


Deixo aqui uma pequena descrição dos vinhos aos quais não dou classificação porque quem acompanha o blog sabe que não gosto de provar vinhos em catadupa e que todos os vinhos que classifico são na realidade bebidos com calma e geralmente às refeições. Ou seja, por insuficiência pessoal, não consigo e recuso-me a distribuir notas a onze vinhos dos quais provei uma pequena quantidade em meia-hora. Pela ordem provada:

Dow’s Qt. Srª da Ribeira Vintage 2005 – Cor púrpura forte. Aroma doce a fruta madura. Ligeiro aniz e floral-bergamota. A boca acrescentava ao mix notas de chocolate. Final com ligeiro ardor alcoólico.

Qt. Vesúvio Vintage 2000 – Ainda vermelho escuro opaco. Fruta contida no aroma e ligeiro chocolate. Boca já bem macia, com notas doces da fruta e final apimentado. Guloso. Muito bom e, para mim, o melhor vintage da sessão.

Dow’s Qt. Srª da Ribeira Vintage 1999 – Cor ainda bem vermelha escura. Aroma um pouco alcoólico com alguns licorados e chocolate. Algo fechado. A boca mostra já algum fruto seco do tipo figo. Final curto e ligeiramente alcoólico.

Graham’s Malvedos Vintage 1998 – A cor já mostra os primeiros tijolados. Aroma a figo doce. Na boca os licorados e o figo doce predominam. Mais cheio que o anterior.

Dow’s Qt. do Bonfim Vintage 1996 – O mais efusivo no aroma. À falta de melhor exemplo: cheirava a rebuçados do Dr. Bayard. Na boca é muito redondo com licorados doces e final a torrefacção. Interessante porque saiu fora do conjunto.

Warre’s Qt. da Cavadinha Vintage 1995 – Aroma a figo doce. Macio. Equilibrado com os licorados e algum fruto seco a ampararem o álcool. Os vinhos nesta fase estão todos num estilo que não é meu preferido. Muito doces com os licorados e figos a dominarem a prova e os menos encorpados a deixarem o álcool dominar o final.

Qt. Vesúvio Vintage 1994 – Cor ainda em tons de vermelho vivo. O aroma algo fechado com os aromas de frutos secos a passas ao contrário dos figos anteriores. Boca doce com passas maduras e, tal como 2000, com um final ligeiramente apimentado. Houve quem tivesse gostado mais deste, mas para mim, como vos disse, já está numa fase muito doce.

Warre’s Qt. da Cavadinha Vintage 1987 – Aroma fechado com álcool a dominar o nariz. Ainda assim algum caril (ou caldo Knorr, como eu lhe chamo). Um pouco magro na boca, sobressaindo o álcool e a torrefacção.

Dow’s Qt. do Bonfim Vintage 1986 – Este vinho não se apresentou nas melhores condições. Houve quem lhe chamasse rolha mas para mim acho a acidez volátil é que estava exagerada. Acetona e até um toquezinho de ovos podres.

Graham’s Malvedos Vintage 1965 – Cor já bem dentro dos acastanhados. Pouco aromático, apenas a sensação alcoólica predominava. Na boca apareciam os frutos secos, o caramelo e a torrefecção. Ainda assim, algo plana. Uma pequena desilusão.

OTIMA 20 anos tawny – Cor âmbar acastanhada. Aroma a caril, farripas de laranja e caramelo. Boa acidez com as notas de caramelo a dominarem. Um final um pouco abrupto e inesperado.


As barraquinhas

Escapulido da prova especial, levantei o meu copo e fiz-me ao caminho. Quase não sujei o copo. Pelas minhas contas, provei quatro vinhos. Parece impossível mas é verdade. O encontro do vinho é para mim mais um encontro com conhecidos e amigos do meio do que propriamente um encontro com os vinhos. Não gosto de provar em feira, por várias razões que já expliquei no post que fiz no ano passado (não gosto de ser chato e repetir-me), e portanto tirando um ou outro caso em que o produtor fez questão em que eu provasse uma novidade especial (como por exemplo na JMF, um rosé de moscatel roxo acabado de fermentar - ainda cheio de CO2), preferi deixar-me ficar pela conversa. Por isso, depois da seca em cima, compenso com esta secção tão curta. Para o ano há mais.

p.s. (1) Como é óbvio não verifiquei todas as barraquinhas, até porque não tenho esse papel, e por isso acredito que tenha havido vários produtores com essa salutar preocupação: a temperatura do vinhos tintos. No entanto, tenho que referir a José Maria da Fonseca como um bom exemplo porque me mostrou a pequena garrafeira climatizada (para nove garrafas, acho eu) em que refrescava os vinhos.

p.s. (2) Para alguém que não gosta de se repetir, o bater na mesma tecla parece um contra-senso, mas continua a parecer-me desolador apresentar os vinhos que foram premiados no concurso da imprensa num mesa corrida sem qualquer controlo de temperatura. Ainda por cima tudo grandes vinhos que quando os provamos não possam de grandes caldos.

4 comentário(s):

Fernando Santos disse...

Caro Amigo,

Eu como noviço que sou nestas andanças para mim foi divinal. Daqui a uns anos espero estar no mesmo patamar de Vossa Exa. e dar-me ao luxo de sair a meio das provas... ;) numa coisa concordo plenamente, a temperatura de serviço, dos tintos poucos ou nenhuns do que provei estava a menos de 20 e poucos graus.

Abraço,
Fernando

P.S. Tive a oportunidade the esperimentar o S de Soberanas Tinto 2004, fantástico. Já o provaste?

rui disse...

Caro Fernando,

Ainda não provei esse vinho mas tenho lido bastante sobre ele. Não tem deixado as pessoas indiferentes.

Um abraço,
RC

p.s. não nos ponhas num patamar muito elevado porque um dia pregam-nos uma rasteira, caímos e ainda nos aleijamos. :)

Pedro Sousa P.T. disse...

Não. A crise está mesmo aí. Os Mercedes e Ferraris, as mansões e os iates são sempre os primeiros a sair. A crise está sempre na classe média, nos carros de gama média e nas casas e barcos de gama média. O mesmo se passa nos vinhos. A crise está nos vinhos entre os 5€ e os 12€. Já o vinho de meio tostão ou a granel, a meu ver, diz que está em crise, mas realmente não está. É o refúgio para quem bebe vinho à refeição, e não pode ou não quer gastar dinheiro. É como a classe mais baixa, sofrem, mas a ajuda vem sempre de algum lado, ou é o rendimento mínimo, ou um subsídio ou outro, ou é a paróquia que ajuda ou o banco alimentar etc. Ou seja estão sempre safos. Mas agora a classe média...
Desculpa o desabafo!!!

rui disse...

Caro Pedro,

este cantinho serve para isso mesmo: desabafos. Nossos e vossos.

A referência que fiz à "crise" foi sarcástica. Na prática, concordo com o teu desabafo.

Um abraço,
RC

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